Vim para o trabalho de bicicleta. Estivesse de carro ou moto, hoje eu teria matado um homem, condenado pelo simples fato de caminhar distraído. Ou pelo menos arrebentado o dito cujo. Ele apareceu de trás de uma Kombi, de repente, passos rápidos. Na minha frente. Talvez assobiasse; não deu para ter certeza. Em segundos, o olhar tranquilo com o qual olhava o horizonte virou susto. Depois, constrangimento.
Consegui brecar. Por não andar colado na guia ou nos carros estacionados (estivesse junto deles, não teria dado tempo). Por não pedalar rápido. Por não pesar uma tonelada. Estivesse de carro, no trecho em que estava, sem nenhum pedestre à vista, estaria mais rápido. E, por mais atento que estivesse, teria acertado o cara.
Deu para frear, deu tempo de forçar a roda de trás e derrapar de lado. Um skid. Quase encostei nele. Constrangimento. Depois do susto, o homem insistia em pedir desculpas, em olhar para os lados com a cara variando entre branco e vermelho. Pedi desculpas também, lembrei que a rua é dele, que pedestre tem preferência sempre e segui meu caminho. E fiquei pensando sobre culpas e direitos.
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Estudo divulgado nesta terça-feira, 19 de julho de 2011, indica que atropelamentos são a principal causa de internação por traumas no Serviço de Cirurgia de Emergência e Trauma do principal pronto-socorro de São Paulo, o Instituto Central do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Nada menos do que uma de cada cinco pessoas (20,5%) atendidas foram atropeladas. Os acidentados com motocicletas vem logo em seguida (19,5%).
Dos atropelados atendidos no Pronto-Socorro do Hospital das Clínicas, 62,9% são homens; certamente, alguns distraídos.
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Cubatão, cercada por indústrias e rodovias
Velocidade e aceleração são as palavras-chaves nesta equação. Os carros e motos ficam cada vez mais potentes, capazes de atingir velocidades altíssimas em segundos; as corridas de rua são glamourizadas com apoio do poder estatal, em instalações públicas; nos filmes para crianças e nos novos brinquedos agora os heróis são carros velozes (e furiosos, eventualmente).
Em acidentes, quando o carro está a 30 km/h, 30% dos atropelados saem ilesos, 5% morrem e 65% ficam feridos. A 50 km/h, 5% saem ilesos, 45% morrem e 55% ficam feridos. Acelerando mais um pouquinho, a 65 km/h, ninguém sai ileso, 85% morrem e 15% ficam feridos. A 80 km/h, ninguém sai ileso e quase 100% das vítimas morrem. Os números são do Observatório de Segurança Viária da Espanha, foram publicados originalmente no jornal El País e estão disponíveis em português nesta análise do Instituto de Pesquisa e Cultura Luiz Flávio Gomes.
A tragédia cotidiana em curso, com a qual nos acostumamos e que passamos a considerar normal, não só e estúpida como também cara. Em nota divulgada nesta manhã pela assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Saúde, o professor do Departamento de Cirurgia lembra que “o número elevado de internações por trauma, além de onerar todo o sistema de saúde, traz um comprometimento social e da esfera trabalhista”.
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A maneira como nos locomovemos define o tipo de cidades em que vivemos. A relação é direta; e não é por acaso que têm sido difícil respirar em São Paulo. Quando o assunto é velocidade, porém, e não poluição, a aceleração no transporte individual motorizado implica em tirar as crianças e os idosos das ruas, cercar com grades os cruzamentos mais perigosos para evitar que pedestres caminhem por ali e, quiçá, proibir pura e simplesmente a circulação de pessoas. Ainda não chegamos a tanto.
E talvez nem seja preciso chegar. Se as iniciativas da Secretaria Municipal de Transporte em respeito à vida tiverem o apoio necessário por parte do prefeito, da população e da mídia, talvez seja possível frear a construção da anticidade. E, entre elas, a redução da velocidade nas vias é fundamental para salvar vidas de pedestres. Distraídos ou não.
E talvez nem seja preciso chegar. Se as iniciativas da Secretaria Municipal de Transporte em respeito à vida tiverem o apoio necessário por parte do prefeito, da população e da mídia, talvez seja possível frear a construção da anticidade. E, entre elas, a redução da velocidade nas vias é fundamental para salvar vidas de pedestres. Distraídos ou não.
Nuvem de poluição sobre São Paulo, hoje cedo
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