Alunos locais e visitantes em atividade conjunta. Crédito Edson Grandisoli/Escola da Amazônia |
| “Para a maioria dos brasileiros, a Amazônia é um lugar exótico e distante, com o qual tem apenas um tênue laço de afetividade e responsabilidade” |
De acordo com essa visão, o futuro sustentável da Amazônia vai exigir a disseminação de conhecimentos sobre a floresta - seus usos, sua importância e seu estado de conservação – e, acima de tudo, uma mudança nos valores atribuídos a ela. As pessoas deverão se importar com a floresta, tanto por causa dos produtos e serviços que ela oferece, quanto por razões éticas e estéticas, culturais e sentimentais. Razão e emoção deverão formar as bases de uma relação responsável com a floresta. Ora, conhecimentos e valores são adquiridos por meio da experiência e, sobretudo, por meio da educação. Portanto, a crise ambiental na Amazônia é, em última análise, também uma crise da educação. Em resposta a isso, criamos a Escola da Amazônia, cujo objetivo é desenvolver e testar abordagens de educação para fomentar entre os brasileiros – principalmente os mais jovens – o interesse, o apego e, consequentemente, o respeito pela floresta.
A história
Maratona de Nova York, 1998. No quilômetro 25 de um percurso de 42 quilômetros, uma repentina e completa fratura por estresse do meu fêmur direito pôs um fim no meu plano de completar a mais badalada corrida de rua do mundo. Caí em estado de choque sobre o asfalto gelado sem ter a menor ideia do que havia acontecido e menos ainda das implicações que aquilo teria sobre minha vida. Três cirurgias nos quatro meses subsequentes, uma severa infecção hospitalar e nove meses sem andar puseram também um fim prematuro no meu doutorado em ecologia, já que fazer o trabalho de campo nas reservas do Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais usando muletas seria impossível. Numa guinada do destino, encerrava-se minha curta carreira de aspirante a ecólogo de florestas tropicais, mas minha vida profissional tomava um novo rumo que culminaria na criação da Escola da Amazônia.
| “Caí em estado de choque sobre o asfalto gelado sem ter a menor ideia do que havia acontecido e menos ainda das implicações que aquilo teria sobre minha vida” |
A experiência era fantástica, mas me incomodava o fato de que apenas alguns poucos estudantes americanos tinham o privilégio de conhecer a Amazônia brasileira de modo tão completo e profundo. A maioria daqueles estudantes não se envolvia com o tema da conservação quando voltava para suas vidas nos Estados Unidos e praticamente todos perdiam o vínculo com a Amazônia. Decidi então buscar uma maneira de oferecer aquela oportunidade a estudantes brasileiros também. Foi com essa motivação que abri, em 2000, a firma Amazonarium, cuja missão era incentivar e facilitar a vinda de estudantes para a Amazônia, oferecendo excursões e oportunidades de imersão cultural nos moldes da SIT. Naquele mesmo ano, por meio do Amazonarium, conheci a empresária e ambientalista Vitória da Riva Carvalho, a Dona Vitória, proprietária do Hotel de Selva Cristalino (Cristalino Jungle Lodge) e presidente da Fundação Ecológica Cristalino (FEC), e com ela estabeleci uma colaboração para levar estudantes para Alta Floresta, na fronteira agrícola da Amazônia.
Em 2002, Dona Vitória e eu demos à nossa colaboração o nome de Escola da Amazônia. No ano seguinte, realizamos nossa primeira oficina com jovens de escolas públicas de Alta Floresta. Um pouco mais tarde, Edson Grandisoli, que por felicidade era meu melhor amigo dos tempos da graduação na USP, entrou para o time e passou a trazer para a Escola da Amazônia grupos de jovens do ensino médio dos colégios particulares de São Paulo onde lecionava. Em 2005, a Escola da Amazônia foi incorporada à FEC e passou a receber apoio de patrocinadores, graças ao empenho do seu então diretor executivo, Renato Farias. No mesmo ano, voltei à academia, com um doutorado pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, para investigar os fatores cognitivos, afetivos e sociais que determinam o comportamento humano de matar grandes felinos e como usar educação e comunicação – como usar a Escola da Amazônia – para influenciar aqueles fatores e aumentar a tolerância humana às onças. Nos anos seguintes, a Escola da Amazônia se consolidaria como um laboratório de técnicas e estratégias em educação para a conservação.
Os objetivos
Nesses 8 anos de experimentações, a Escola da Amazônia explorou os meios para se alcançar fundamentalmente três objetivos: (i) identificar, mensurar e monitorar os fatores que determinam o comportamento das pessoas em relação à floresta e sua biodiversidade, (ii) influenciar tal comportamento por meio da educação, de modo a torná-lo mais compatível com a conservação, e (iii) desenvolver um modelo de educação para a conservação que seja sustentável dos pontos de vista institucional e financeiro.
| “Entender o comportamento humano em relação ao mundo natural deveria ser o primeiro passo de qualquer programa de educação para a conservação” |
Visita a madeireira. Crédito: Edson Grandisoli/Escola da Amazônia |
As principais abordagens de educação experimentadas na Escola da Amazônia são aquelas que priorizam a aprendizagem ativa, na qual os alunos constroem seus próprios conceitos sobre as informações que adquirem explorando a floresta. Os alunos são incentivados a compartilhar e discutir suas descobertas e ideias, generalizando do local para o global. Dessa forma, se aproximam da compreensão de sua conexão com a floresta; de como afetam e são afetados pela Amazônia.
Participantes da oficina Um Dia na Floresta. Crédito: Tiago Henicka/Escola da Amazônia |
Educação para a conservação leva tempo para causar o impacto desejado. Muitos projetos de educação ambiental são encerrados por falta de apoio institucional e financeiro antes de cumprirem plenamente sua missão. Isso se constitui em desperdício de recursos e contribui para a noção de que a educação ambiental não é efetiva para fins de conservação. Educação ambiental, combinada com incentivos legais e econômicos e participação comunitária, pode sim ser efetiva, porém a longo prazo. É vital, portanto, que ela seja sustentável institucional e financeiramente.
| “Muitos projetos de educação ambiental são encerrados por falta de apoio institucional e financeiro antes de cumprirem plenamente sua missão” |
No programa Escolas Irmãs, fomentamos a cooperação entre escolas públicas rurais locais e colégios particulares visitantes, com benefícios acadêmicos para ambos os lados e benefícios materiais para a escola local, já que a cooperação envolvia a doação de material escolar pelo colégio visitante e parte da renda gerada pela visita era usada para subsidiar a participação dos alunos da escola local. Por esse esforço em desenvolver um modelo sustentável de educação ambiental, diminuindo a distância geográfica e cultural entre classes sociais num país de desigualdades como o nosso, a Escola da Amazônia recebeu o Whitley Award 2007. O prêmio é considerado o Oscar da conservação na Inglaterra e foi recebido das mãos da Princesa Anne em Londres.
As realizações e os próximos passos
Alunos visitantes exploram a floresta. Crédito: Edson Grandisoli/Escola da Amazônia |
Como é comum na pesquisa científica, algumas das questões respondidas ao longo do caminho suscitaram novas questões. Entre as próximas questões a serem abordadas pela Escola da Amazônia, as mais estimulantes são as referentes à replicabilidade do projeto. Estamos buscando oportunidades de testar a aplicabilidade de algumas de nossas abordagens em outras partes do Arco do Desmatamento e da Amazônia como um todo, nos outros biomas brasileiros e em diferentes contextos institucionais, com interesse especial nos contextos empresariais e governamentais. Esperamos assim contribuir para que os brasileiros assumam seu papel na conservação das florestas e da biodiversidade excepcional que nosso país abriga.
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